segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Charge sobre advogados gera controvérsia

 

Charge sobre advogados desencadeia briga na imprensa nacional


Um xerife entra no saloon e pergunta: “E esse aí, é mocinho ou bandido?”. Em resposta, alguém grita: “Pior: é advogado”. Poderia ser mais uma piada na vasta coleção de chacotas sobre operadores do Direito (como a velha “O que é que é:  é marrom e fica ótimo no pescoço de um advogado? Um doberman”), mas por ser publicada no jornal O Globo durante o julgamento da operação “lava jato”, desencadeou uma briga entre jornalistas que deve chegar aos tribunais.


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O autor da charge, Chico Caruso, logo após sua publicação, foi atacado publicamente em duas edições diferentes da mesma revista: Carta Capital.  Seu irmão, o também cartunista Paulo Caruso, já recomendou o caminho do Judiciário para resolver a questão, com uma ação de danos morais.

Quem chamou para a briga foi o editor especial da Carta Capital, Mauricio Dias, ao afirmar que Caruso “jogou lama nos advogados e os rebaixou literalmente à condição de bandidos”. Indo ainda mais fundo, disse que as caricaturas de Caruso “têm sido parte integrante da linha golpista adotada hegemonicamente pela maioria maciça da imprensa brasileira”.

Para dar um ar impessoal ao seu texto, convocou um doutor em Linguística (o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Wedencley Alves) para interpretar um outro desenho de Caruso, na qual os réus da operação “lava jato” entram nus no Supremo Tribunal Federal, enquanto os ministros (togados) observam. As lições comezinhas de Semiótica apontam que são inúmeros os significados possíveis, mas o artigo de Maurício Dias é cartesiano: para ele, o cartunista quis humilhar os acusados, com a nudez, típica dos castigos medievais e das torturas na ditadura militar no Brasil.

Caruso se defendeu: ao colocar alguém dizendo que ser advogado era pior do que ser mocinho ou ser bandido, a graça era que hoje em dia não se sabe mais quem é o que. Quanto à nudez dos acusados, a referência é ainda mais óbvia (exceto para o texto de Dias e para o professor Wedencley): o rei está nu! Poderosos empreiteiros, políticos e influentes diretores da Petrobras em um julgamento acompanhado diariamente.

O cartunista mandou sua reclamação para Mino Carta, diretor de redação da Carta Capital, dizendo ter sido injustiçado. Como resposta, não recebeu uma mensagem, mas um editorial na edição desta semana da revista, assinado pelo próprio Mino, dizendo ser “impossível dialogar nas circunstâncias de hoje com quem acredita, como Chico Caruso, que o Judiciário aponta uma nova direção para nossa política”.


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Espelho meu

O diretor da Carta Capital imputa a Caruso a intenção de achincalhar as duas centenas de advogados que assinaram um manifesto para protestar contra as irregularidades cometidas na operação “lava jato”. A posição que, na cabeça de Mino, seria do cartunista — de ignorar as ilegalidades de uma operação em prol de uma justiça maior — lembra a que ele mesmo adotou há quase dez anos.

O justiçamento então era feito alegando-se o necessário combate ao fim dos crimes de colarinho branco. O réu era o empresário Daniel Dantas e os algozes, os ex-delegados da Polícia Federal Protógenes Queiroz, Paulo Lacerda e o então juiz federal Fausto De Sanctis (hoje desembargador), todos reunidos na malfadada operação satiagraha.

Atualmente, muitos defendem que os justiceiros têm a missão de acabar com a corrupção, ao prender empresários e políticos, que saem das celas firmando acordos de delação premiada para falar da corrupção investigada na Petrobras e em outras estatais.
Como antes, quem acompanha o caso com os olhos na lei e na Constituição aponta que a solução para o crime jamais será a injustiça. Nem contra os acusados, nem contra cartunistas. Na aclamada democracia, ainda resta a liberdade de expressão, como lembrou a Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro, única entidade a “reclamar” da charge de Caruso, usando outra charge, assinada por Aliedo: “Os advogados brasileiros lutaram muito para garantir o direito de defesa e a liberdade. Inclusive a de se dizer tolices”.

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