terça-feira, 1 de julho de 2014

PL anula direitos dos compradores de imóveis

 
A Câmara aprovou um projeto de lei que elimina direitos de compradores de imóveis
na planta. O texto agora segue para o Senado e, se aprovado como está, legitimará de
vez todas as ilegalidades cometidas pelas incorporadoras.

Segundo o texto aprovado, que é um remendo do projeto original e que garantia indenizações
justas aos compradores em caso de atrasos sobre o valor do imóvel, a versão atual fixa
indenização somente quando os atrasos são superiores a 180 dias (legalizou o atraso de 6
meses) e determina que a empresa pagará uma multa única de 1% e indenização de 0,5% por
mês de atraso, calculados sobre os valores pagos pelo consumidor. Um enorme presente para
as empresas.

Levando-se em conta que durante a obra o consumidor paga em média 20% a 30% do valor
do contrato e é sobre esse montante que será calculada a indenização, tem-se que a suposta
indenização é irrisória. Pior do que isso é que o saldo continua sendo corrigido, mesmo em
caso de atraso, pelo INCC, cujo índice médio é de 0,7%. No fim das contas, o consumidor teria
um valor de 0,5% sobre os 20% pagos e pagaria um reajuste de 0,7% sobre os 80% do saldo
enquanto a obra não for entregue.

Em números exemplificativos, em um imóvel de R$ 400 mil, a indenização devida ao
comprador seria de R$ 400,00 mensais, enquanto o saldo devedor cresceria R$ 2.240,00 por
mês de atraso da empresa. Além da indenização ser insuficiente para pagar o aluguel de
qualquer imóvel, a dívida do comprador continua crescendo de forma cumulativa.

É de se observar também que, como o valor final será pago com financiamento bancário,
mesmo com crédito aprovado, o comprador não poderá quitar esse saldo que está sendo
corrigido acima de todos os índices inflacionários, pois depende necessariamente que a
empresa conclua a obra fisicamente e regularize a documentação, pois o financiamento
imobiliário somente é liberado com o imóvel em ordem. Ou seja, o comprador paga correção
pelo atraso.

Hoje, com base na legislação existente, os Tribunais têm fixado indenizações de 0,8% sobre o
valor atualizado do imóvel até a efetiva entrega, entendimento pacificado pelo STJ que
assevera que referido prejuízo é presumido pela privação do uso do imóvel e independe de
comprovação. 

Outro ponto é que o Ministério Público de São Paulo tinha firmado no final de 2011 um TAC
com o Secovi em termos semelhantes ao da Lei aprovada, TAC esse que foi rejeitado pelo
órgão, pois era extremamente lesivo ao consumidor.

Então, por que uma lei que comprovadamente é um enorme retrocesso às relações de
consumo e representa prejuízo aos consumidores, interessando somente às poderosas
construtoras, é aprovada?

A resposta talvez esteja nos números do TSE:

Nas eleições de 2012, 55% das doações para campanhas de todos os partidos políticos vieram
de construtoras, o que representa R$ 416 milhões em doações deste segmento.
Outro dado: mais de 75% das doações ao PT em 2013 vieram de construtoras e das 10
maiores empresas doadoras no ano, 8 eram da construção civil. Coincidência?

Mas nem tudo está completamente perdido. A exemplo do que ocorreu com outros
contrabandos legislativos, que excluíam multas das operadoras de planos de saúde ou que
isentavam as empresas de viagem de responsabilidade pelos pacotes defeituosos, tem a
imprensa e o povo relevante papel na defesa dos interesses da população, exigindo do Senado
Federal ou, em última análise, da Presidente da República, que vetem mais essa aberração

legislativa.

Fonte: Infomoney


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