quarta-feira, 5 de junho de 2013

GUERRA NO MERCADO DE FÁRMACOS

 

O COMEÇO DA GUERRA PELO MERCADO DE MEDICAMENTOS DA HEPATITE C

Carlos Varaldo
Uma luta de pesos pesados está começando no mercado de medicamentos para tratamento da hepatite C. Com a aprovação pelo FDA dos inibidores de proteases Incivek (telaprevir) e Victrelis (boceprevir) os fabricantes, tal qual no jogo de Xadrez, estão movimentando suas peças no tabuleiro do marketing para ganhar posições e tentar vencer o jogo do mercado.

Conforme o andamento dos ensaios clínicos para aprovação do Incivek (telaprevir) todo indicava que a Roche seria o canal de comercialização, mas a Johnson & Johnson que possui os direitos do Incivek (telaprevir|) na Europa, tomou a decisão de comercializar diretamente. Imediatamente a MSD, fabricante do Victrelis (boceprevir), realizou um acordo com a extraordinária força de vendas da Roche e juntas estarão comercializando o Victrelis.


O mercado total para os inibidores de proteases é estimado em até 10 bilhões de dólares. É impossível neste momento qualquer previsão sobre quais dos dois medicamentos estará à frente do mercado. MSD e Roche juntas serão a maior força de venda já imaginada na indústria farmacêutica, com a vantagem que os interferons peguilados existentes atualmente são da fabricação desses dois gigantes. Johnson & Johnson deverá pensar em estratégias eficazes já que não dispõe de um interferon peguilado próprio.

Se analisarmos os resultados dos ensaios clínicos podemos pensar que como eles selecionaram grupos diferentes de pacientes muito provavelmente cada medicamento terá supremacia nesses grupos já comprovados. O Incivek (telaprevir|) focou a maioria dos ensaios clínicos em pacientes nunca antes tratados, já o Victrelis (boceprevir) foi direcionado ao retratamento dos não respondedores.

Acredito pessoalmente que esses dois mercados já estarão praticamente definidos, podendo até prever (com grande margem de erro) que cada um será líder nesses grupos específicos de pacientes.


Ainda, os dois medicamentos possuem formas de administração totalmente diferentes. O Incivek (telaprevir) é utilizado nas primeiras 12 semanas do tratamento e o Victrelis (boceprevir) é administrado a partir da semana 4 e até o final do tratamento. Isso certamente influenciara na decisão da indicação médica. Qual será a preferência dos médicos ainda permanece uma incógnita.

Mas o maior problema será o preço. Foi divulgado está semana que o preço de referência nos Estados Unidos será de 49.200.- dólares para o tratamento com o Incivek (telaprevir) e de 48.400.- dólares para o tratamento com o Victrelis (boceprevir). A esse custo devemos ainda somar os custos com o interferon peguilado e a ribavirina, já que ambos os medicamentos devem ser utilizados conjuntamente, assim, o custo final do tratamento mais que dobra em relação ao custo atual.

O preço referência não, necessariamente, será o verdadeiro preço de venda ao público, aos planos de saúde ou aos governos, devendo ainda se considerar que em outros países os preços de referencia poderão ser diferentes. Muitas negociações serão abertas e a luta pela supremacia do mercado certamente estará reduzindo os preços de venda em curto prazo.
Confesso que fiquei decepcionado com os preços fixados, mas devemos considerar que o prazo para que as empresas recuperem os bilhões de dólares gastos com o desenvolvimento dos medicamentos será muito curto, de no máximo três ou quatro anos, período em que estarão chegando novos medicamentos que já se encontram em fases avançadas de desenvolvimento, com o que vai aumentar a concorrência ou até conseguir que alguns medicamentos sejam retirados do mercado. Pelo andamento das pesquisas a Bristol-Myers Squibb deverá ser a próxima a chegar ao mercado. Mas ainda fico me perguntando se os que chegarem no futuro terão preços iguais ou superiores aos fixados para o Victrelis e o Incivek.

Nos Estados Unidos, acredito que isso também vai acontecer em outros países, tanto a MSD como a Vertex se comprometeram a auxiliar pacientes de menores recursos com programas de assistência pelos quais poderão conseguir um preço reduzido. Mas cada país possui um sistema público de saúde diferente, assim, a estratégia comercial não será única e sim adaptada a cada país. Devemos aguardar pelo menos até o primeiro semestre de 2012 para sabermos como os medicamentos poderão chegar aos pacientes.

A guerra pela supremacia do mercado não é um problema dos pacientes. O preço dos novos medicamentos pode ser caro, mas o benefício imediato que a hepatite C estará conseguindo é que os fabricantes estarão aumentando os esforços para lograr uma maior conscientização sobre a hepatite C. Como resultado, estaremos não somente salvando milhares de vidas, também, conseguiremos diminuir a discriminação e o estigma que ainda carrega a doença.

Quando esses novos medicamentos estarão disponíveis no Brasil para tratamento gratuito no SUS é a pergunta que por enquanto não encontra resposta.
Carlos Varaldo é Presidente do Grupo Otimismo de Apoio ao Portador de Hepatite.
E-mail: hepato@hepato.com
Mais informações.

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