quarta-feira, 18 de abril de 2012

Governo reduz dose de remédio a pacientes de doença rara

Após licitação, governo reduz dose de remédio a pacientes de doença rara

17 de abril de 2012 | 22h 36 - Lígia Formenti - O Estado de S.Paulo


BRASÍLIA - Após licitação tumultuada para a compra de um tradicional remédio usado no tratamento da doença de Gaucher, disfunção genética rara que pode levar à morte, os pacientes que dependem do medicamento fornecido pelo governo federal tiveram de aceitar uma dose menor ou outra droga. Com o remédio em falta, o Ministério da Saúde estimulou a participação de pacientes em um estudo clínico de uma droga experimental, mostra documento obtido pelo Estado.
Aos 4 anos, Amanda Mantovani Cardoso, no colo da mãe, Fernanda, piorou após doses pela metade - Epitacio Pessoa/AE

Aos 4 anos, Amanda Mantovani Cardoso, no colo da mãe, Fernanda, piorou após doses pela metade.
Diante da constatação de que o medicamento imiglucerase, adquirido pelo governo para distribuição gratuita, seria suficiente para atender apenas metade do previsto para 2012, o governo convocou uma reunião com médicos e representantes de secretarias estaduais para definir as saídas possíveis. Na época, a imiglucerase era usada por 553 dos 611 pacientes cadastrados.

Além do ingresso na pesquisa clínica - batizada de Encore -, o grupo formado pelo ministério listou duas alternativas: a substituição da droga por outra, a taliglucerase alfa, ou a redução da dosagem da terapia tradicional.

"A saúde piorou, tenho mais cansaço, dores nas pernas", afirmou o advogado Nelson Guinato Júnior, de 51 anos que teve a dose da imiglucerase reduzida pela metade.

A pesquisa clínica é uma fase necessária para o lançamento de uma nova droga no mercado. Durante o processo, médicos avaliam, por exemplo, a eficácia e o perfil das reações adversas provocadas pelo remédio testado.

No caso da doença de Gaucher, eles migraram do remédio tradicional, fabricado pela Genzyme, para o experimental, da mesma empresa. Com a recomendação, o número de pacientes usando o medicamento experimental subiu de 27 para 41. O de pacientes usando a taliglucerase alfa, de 31 para 60. Com isso, o número de pessoas usando a imiglucerase caiu para 510.

'Mudança.' "Não é racionamento, é uma mudança no protocolo de atendimento", disse o diretor substituto do Departamento de Assistência Farmacêutica (DAF) do Ministério da Saúde, Rodrigo Fernandes Alexandre. Ele afirma que a reavaliação da terapia foi feita em comum acordo com especialistas, é opcional e não trouxe prejuízo para pacientes. "Foi um ajuste", definiu. Ele disse que o ministério não recebeu nenhuma queixa sobre a mudança na terapia.

Pacientes, no entanto, fazem relatos diferentes. Mesmo com a piora do estado depois da redução da dosagem, o tratamento original de Guinato Júnior não foi retomado. "Há companheiros de tratamento em situação pior", contou.

Antes da redução da dosagem, Guinato recebeu a oferta de mudar o remédio usado, mas não a aceitou. "Receava não me adaptar com a taliglucerase e nunca mais conseguir retornar à imiglucerase", afirmou.

Além disso, ele observa que médicos recomendam a troca de remédio apenas em situações extremas. "O organismo leva um tempo para se adaptar. Nunca sabemos quais reações vamos ter."

O presidente de uma associação nacional de portadores da doença de Gaucher e de outra doenças raras, Pedro Carlos Stelian, queixa-se do desencontro de informações. "Não defendemos remédio X, Y ou Z. O grupo quer tratamento, informações claras e uma estratégia bem definida, segurança", afirmou. Algo que, em sua avaliação, não está ocorrendo.

Stelian estranha, por exemplo, o fato de não ter chegado ao Ministério da Saúde informações sobre a piora no estado dos pacientes. "Não precisa ser especialista para antever que, se paciente toma uma dose do remédio e essa dose é repentinamente reduzida, algo vai ocorrer."

O diretor substituto do DAF afirmou que em julho deverá ser feita uma avaliação dos estoques do remédio. Ele informa, no entanto, que cálculos iniciais mostram que a mudança definida no início do ano foi suficiente para adequar os estoques da medicação até o fim de 2012. Ele também conta com o ingresso de uma nova droga, miglustate, indicada para pacientes que não respondem bem aos medicamentos taliglucerase ou imiglucerase. A previsão inicial era de o remédio estar no País a partir de fevereiro. Até agora, no entanto, a compra não foi finalizada.